Meu amigo, jornalista Raildon Lucena comentando sobre a posse de Nelson Jobim como Ministro da Defesa nacional, destacou que a direita brasileira esta se apossando dos Ministérios, visando no futuro um possível apoio à candidatura de Aécio Neves nas eleições presidenciais no ano de 2010. “Veja” – ele falou “com a nomeação de Nelson Jobim, a crise aérea, será brevemente solucionada...”. Pode ser.
Mas será que com a solução da crise aérea, os aviões pararão de cair? Controladores vão parar com ameaça de greve? E outros problemas do cotidiano brasileiro. Certamente, não.
A História tem suas leis, imutáveis como o Princípio da Gravidade. O desenvolver de uma nação obedece ciclos, entre auge e crise. Interferência humana só tem efeito catalisador ou atenuante. Infelizmente isto não depende de jogos políticos e de embate entre esquerda e direita.
Se nos lembramos do início dos anos 60, veremos que o golpe era inevitável, tanto poderia ser da direita, o que ocorreu de verdade, ou viraria rebelião esquerdista. Analise detalhada daquele período revela que já foram debeladas as tentativas de golpe em 1955, na época de Juscelino Kubitschek e em 1961 quando só ameaça de Brizola levar o país à guerra civil, parou os militares. No entanto, as reformas-base do João Goulart já foram tão longe com respaldos em amplos setores da sociedade assim como os sindicatos, estudantes e elite intelectual, que o presidente não podia mais evitar os antagonismos com os conservadores. Assim o golpe era inevitável. Se Janco conseguisse debelá-lo, levaria o país à implantação do socialismo que seria o mesmo golpe, só que socialista. Por mais que seja fatalista, mas o golpe era inevitável. Aos humanos só sobrou desenhar os detalhes.
É o passo da civilização brasileira. Assim que foi aprovada a Constituição brasileira, já fundamentaram a próxima crise da nação que talvez seja muito traumática para todos nos. Quando aprovaram nova Constituição, legalizou-se o status quo entre as facções políticas. Se escondendo nas entranhas legais, os representantes políticos remanescentes desde os tempos militares, regularizaram-se e começaram a preparar os seus sucessores afim de garantir a estabilidade que conseguiram após a redemocratização. Mas sua visibilidade foi muito mais explícita, revelando os lados nada agradáveis aos olhos da nação. Por que em 1988, a Constituição não prévia os ataques do PCC, o apagão, o Renan, os mensaleiros, os sanguessugas, entre os escândalos federais. E quantos escândalos, estaduais, municipais existem por aí? E os responsáveis que são vistos por todo mundo, não são condenados. Enfim, o Estado moldurado na Constituição pede sua legitimidade perante os olhos dos brasileiros. Mas a crise não é só governamental, a crise é civilizacional. Chegaremos ao ponto quando a sociedade não verá mais necessidade do Estado que existe agora, e o Estado não poderá mais fazer alguma coisa. Santo Agostinho, jurista e filósofo teológico no século V já descrevia na sua obra “cidade de Deus”,que Estado devia ter “a graça divina” ou seja proporcionar o desenvolver da sociedade. Caso contrário, ia se afundar nos vícios e perderia legitimidade perante seus cidadãos, que ficariam livres de obrigação de prestar obediência e teriam direito à “rebelião justa”. Nossos governantes, acobertos sob o manto democrático, pensam que o mandato eleitoral os legitimiza e indulta dos seus crimes, o que não é bem assim. No final teremos a situação puramente leninista quando “as elites não podem e o povo não quer”.
Dado o impasse, irá pouco tempo para acontecer uma nova crise da identidade brasileira. Se o país mergulhará numa guerra civil ou se limitará com reforma profunda do Estado, se sofrerá com golpe reacionário ou terá um cunho socialista, já não cabe a mim saber. Tudo dependerá da aptidão dos governantes, não importando se eles são da esquerda ou da direita.
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