Fiquei feliz em achar o comentário do meu querido Diógenes Moura (Curador da Pinacoteca de São Paulo) na internet. O texto abaixo foi escrito em uma parede na exposição que tive a honra de ver quando estive em São Paulo.
VI
(Cem gramas de vodka e o amor)
Andrei Barinov Gurgel é filho de mãe russa e pai brasileiro. Seu pai, inclusive, já foi prefeito de Caicó, uma cidade no interior do Rio Grande do Norte. Por isso a intimidade com o português. Tão íntimo que até foi capaz de nos tratar carinhosamente por “véio”. Sua família até hoje vive em Caicó. Ele também já viveu lá. Voltou para estudar Medicina. Em Moscou a Universidade é grátis. Depois de formado, vai se mandar. Andrei foi um dos nossos guias. Foi ele também que nos levou para conhecer a casa dos seus avós. Pegamos um bonde, eu, Ricardo Barcellos e Luiz Gustavo Dias que nos acompanhou no projeto captando imagens para seu filme, A Marcha. O bairro chamava-se Izmailovo, ficava a cerca de 40 minutos do Hotel. O trajeto foi, de certa forma, um encontro com o passado. O bonde parecia uma grande sala de estar. Mesmo que aquelas pessoas não se conhecessem, elas falavam, umas com as outras, sobre suas histórias. A maioria tinha mais de 60 anos. Uma senhora, sorrindo muito, disse que preferia Moscou de 15 anos atrás, “quando as pessoas eram mais amorosas”. Disse, também, que antigamente “as mulheres se vestiam todas diferentes umas das outras, porque faziam suas próprias roupas” e que quando elas voltavam da Europa, com seus anéis de ouro, eram consideradas importantes: “Hoje não é mais assim. As mulheres estão todas iguais”. Também sorrindo, um homem, cerca de 80 anos, contou que era vigia do laboratório onde estava “guardada” a primeira bomba atômica. Ficou na ativa durante 45 anos. Agora estava aposentado, “mas nunca matei ninguém por encomenda”.
Depois do percurso no bonde caminhamos entre pequenos pátios até chegarmos ao prédio com cinco andares que possivelmente será demolido pelo governo de Moscou para que outro, muito mais alto, seja erguido. Aliás, Moscou parece uma cidade em construção. A impressão que temos é a de que vai surgir uma cidade dentro da cidade que já existe. O Coronel do Exército Vermelho Vassili Ivaninoviech Barinov, 85 anos, e sua esposa, a médica Maria Vassilievna Barinov, 82 anos, nos recebeu ao lado de Pushok (peninha), o gato. Ele nos disse que dentro de casa não se usa chapéu. Aquele encontro seria, para mim, um dos momentos mais comoventes de toda a viagem. Primeiro o casal, que é casado há 56 anos, posou na frente do tapete que cobria grande parte da parede da sala. Ao lado, sobre uma peça de madeira escura, retratos da família. Os russos têm uma relação muito profunda com os seus: as fotografias de família sempre então emolduradas nas estantes, nos móveis, em cima do piano. Imagino que seja uma forma que encontraram para não se perderem entre si, muito menos dentro da sua própria memória. Depois de algum tempo, Barcellos fez um retrato de Vassili Ivaninoviech fardado, coberto por medalhas e orgulho. Ele havia defendido Leningrado, hoje S. Petersburgo, durante a Segunda Guerra Mundial. Entre uma palavra e outra nos disse que precisou “se defender” ou perdia a própria vida. Numa guerra sabemos o que significa “se defender”. Para livrar-se do frio bebia 100 gramas de vodka por dia.
Quando Alexander Púchkin escreveu A Filha do Capitão foi considerado, ele e sua prosa, um grande poeta. A narrativa psicológica que nos envolvia dentro daquela casa, na periferia de Moscou, sugeria uma “aproximação” que me fez perceber, silenciosamente, como a poesia é definitiva para a história da Rússia e como esteve presente, como uma “luz flutuante”, em seus piores momentos. Havia uma “guerra” entre nós, ali, naquela sala, um sobrevivente, suas medalhas, a porta aberta para desconhecidos, a mesa posta. Era uma situação profundamente literária.
VII
(Estejam como em casa)
Maria Vassilievna nos avisou que era chegado o momento de passarmos para a cozinha. Sobre a mesa, talheres de prata, taças de cristal, os pratos que haviam sido especialmente estampados para as bodas de ouro do casal, suco de pão preto, caviar vermelho, vodka, os pepinos, as batatas. Elas, as katoskas. Então voltemos para a primeira imagem vista do avião: a grande maquete. Aquelas não seriam as vilas que formaram Moscou, mas, sim, as datchas, as casas de campo. Maria contou que toda família russa ou tinha uma dactha ou tinha vontade de ter e que as batatas sobre a mesa haviam sido plantadas e colhidas por eles: “Ninguém sabe o que é prazer se não comer a batata russa”. Primeiro Vassili Ivaninoviech serviu a vodka. Depois falou que era um prazer para eles a nossa presença (“Estejam como em casa”) e deu início ao ritual: o pequeno cálice com vodka de um só gole, depois um pedido e uma mordida no pepino. Tudo repetido cinco vezes. Cinco palavras, cinco goles, cinco pedidos, cinco mordidas. Há uma fotografia em que Barcellos conta essa história. Há uma lembrança dentro de mim que transformou aquele sábado numa prosa puchtiniana.
(Na volta para o hotel, uma senhora, a partir do nada começou a gritar dentro do metrô alguma coisa que não conseguíamos entender. Pensei em tudo: fome, saudade, medo, uma bomba, um atentado. Não era. Sem gestos, ela protestava contra um casal que se beijava à sua frente. Dizia que aqueles afetos deveriam ser trocados entre as quatro paredes das suas casas (a deles).)
VIII
(A liberdade quando se deseja)
Há algo assim, perdido no tempo, em Moscou. O que foi o passado, o que ele significa para os mais velhos e o que é o presente onde a juventude tenta se encontrar e se olha no espelho. Vê refletido em seu rosto um tempo que poderá ser ainda mais perverso, quando pronunciamos a palavra que o mundo contemporâneo inventou para amenizar muito mais os seus defeitos que as suas compensações: globalização. Moscou se esparrama também diante desse drama. Quem vencerá? Maria diz que é “rica e feliz porque tem seus netos e que o futuro tem que ser cada vez melhor.” Vassili diz que “apesar de tudo, somos russos de verdade e que para conhecer a verdadeira natureza russa tem que deixá-los com raiva: nenhum país conseguiu deter Hitler, só a Rússia.”
Texto por Diógenes Moura
Fonte Blog de Fernando E. Aznar
Algumas fotos da exposição podem ser vistas aqui!
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